O segundo dia da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) revelou, através de suas sete mesas no Auditório da Matriz, um fio condutor comum: a literatura como forma de resistência e reconfiguração diante de realidades difíceis — sejam elas guerras, opressões estruturais ou o peso da memória. A tônica ficou clara já na mesa que reuniu os escritores ucranianos Andrei Kurkov e Maria Reva, ambos autores que interromperam romances após a invasão à Ucrânia em 2022. Para os dois, o humor funciona como estratégia de sobrevivência diante do conflito – uma forma de retomar, mesmo que simbolicamente, o controle sobre a própria vida.
Esse mesmo impulso de resistência apareceu, sob outra chave, na conversa entre o italiano Andrea Bajani e a brasileira Maria Esther Maciel. Bajani descreveu seu romance como uma tentativa de contestar a narrativa oficial patriarcal de uma cultura, dando visibilidade a quem historicamente foi relegado ao espaço doméstico.
Já a mesa da tarde, com Andréa del Fuego e Paulliny Tort, tratou da fabulação como elemento central — e não acessório — da experiência humana, criticando um sistema que despreza a imaginação por não gerar valor prático imediato.
O tema da memória ganhou contornos mais íntimos na fala de Djaimilia Pereira de Almeida, que discutiu a existência de um livro que seu pai nunca chegou a escrever, mas que viveu por décadas em sua mente. Maria Esther Maciel, por sua vez, refletiu sobre como a escrita reconfigura o passado através da subjetividade.
Encerrando o ciclo, Kamel Daoud trouxe o contraponto mais duro do dia: relembrou as ameaças de morte e a sentença de prisão que enfrenta na Argélia por causa de seus escritos, questionando os mecanismos que impedem as pessoas de aceitar verdades incômodas mesmo quando comprovadas.
A programação de ontem, 23, terminou com a atriz Denise Stoklos, que levou ao palco um monólogo performático inspirado na obra do escritor curitibano Dalton Trevisan — um fechamento que, de certa forma, também reconfigurou em cena a literatura de um autor que já não está mais vivo para contá-la.
A 24ª edição da FLIP vai até o próximo domingo, 26.
Imagem – Crédito da foto: Site Oficial da FLIP











